A escuridão o envolvia. Ou a escuridão dele emanava? Tinha o olhar vermelho fixo no pôr-do-sol róseo. O pôr-do-sol, fim do dia, início da noite, início da diversão.
Seus cabelos estavam sempre assentados com a velha brilhatine. Seu sorriso sarcástico era permanente. Sua pele sempre alva como a neve refletia as luzes que aos poucos se acendiam. Com um salto pousou sem som algum no piso coberto de neve. Neve negra, suja, de um lugar sujo. Paris. Olhou para cima, averiguando o que os mortais insistiam em chamar de Notre Dame e que eu simplesmente chamava de...lar. Morava a anos...décadas? Talvez até mais de cem anos. Maldição, ele sempre perdia a noção de tempo. Tempo. Para que motivo queria controlar o seu se tinha o tinha em infinito número.
A lua amarela começava a subir e ele sentia os músculos do corpo se retesarem, endurecerem. Sua própria pele há alguns minutos flácida, tornara-se jovem e atraente. Sorriu ligeiramente. Sempre esta metamorfose ambulante. E há quem diga que os vampiros são seres cheios de fraquezas. Fraquezas. Ora, que impáfia, fraquezas não existem. Nem estacas, cruzes, alho (de onde tiraram esta idéia de alho?), igrejas! Diabos, ele morava em uma. Balas de prata, água benta, medalha de São Sei Lá O Que. Diabos, em vida eu era um padre.
E o cheiro o consumiu. Ele rosnou e virou os olhos, uma mulher de uns quarenta anos andava pela rua, fumando em uma cigarrilha. Fumante. Essa estava pedindo para morrer. Com um inclinar de pernas, a vida dela se findou.
Sangue. A neve negra tornou-se vermelha. Ele se levantou. Sim, existia uma fraqueza. A fraqueza por sangue.
VFS - Apenas para resgatar o vampiro das lendas, o vampiro do passado, não o sugador de sangue que bebe o plasma de animais e brilha ao sol. Para bom entendedor, meia-ironia basta.
10 de janeiro de 2009
2 de janeiro de 2009
O deus Tempo - Vinícius de Freitas Santos
O deus Tempo
O homem tem medo do tempo. Do tempo que não tem passado, nem presente, nem futuro. Do tempo absoluto.
O tempo não tem relógio. Não se submete a medições. Não se confina em idades e épocas. O tempo existe. É presente desde sempre. Incomensurável. Invisível. Impalpável. Ilimitado. Indefinível.
Não teve começo e não terá fim. Sempre presente. Dia, mês, hora, ano, século, milênio são limitações impostas pela finita mente humana. São divisões incongruentes de algo que não admite divisão, parcelamento, enquadramento.
O tempo é eterno, é como se fosse deus. Incriado, como um ser supremo que basta a si mesmo.
Em sua relação com o tempo, o homem se sente finito, criado, medido, calculado, dividido, diminuído e nunca multiplicado.
Em sua finitude, procura superar, tenta conquistar - não o espaço, pois percebe que é inatingível - o tempo para si, todo o tempo, o tempo infindo e infinito.
Em sua finitude, lança mão de estratagemas que lhe permitam pelo menos entender sua função no tempo, sua relação mais ou menos longa com ele, sua eternidade acompanhando-o ou sua parada brusca e irreversível no mesmo.
Em sua finitude, em sua incapacidade de vislumbrar um possível domínio do tempo, o homem se volta para o oculto, para o misterioso, o divino, mas um divino companheiro,acessível, comunicativo, que desvende os arcanos do tempo, desse tempo que, segundo o homem, varre a eternidade inteira com sua presença implacável e despótica. Não um divino cujo poder imponha dor e martírio nos pecadores. Não um divino cruel e tirano.
E o homem encontra a resposta, embora tênue, sofrível, nebulosa, quando não incompreensível e caótica, no divino e em seus mistérios. Mas é uma resposta.
No afã de chamar para perto de si a divindade, multiplica as formas desta, conferindo-lhe mil e uma fisionomias, semblantes ora agradáveis ora terríveis, emprestando-lhe atributos reveladores do tempo e dos tempos, da eternidade e das eternidades.
O divino – que o finito ser humano coloca lá em cima, para além do espaço e talvez para além do tempo – baixa até o homem e este se eleva com ele. Pelo menos é o que ele pensa. Ou será pura ilusão?
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