Eu pude contar um minuto no relógio para que a sineta estridente tocasse. E mais trinta segundos para que a primeira menina entrasse: uma garotinha de cabelos crespos, óculos desproporcionais ao rosto pequeno e arredondado de roupas simples e mochila rosa. Respirei fundo quando ela sentou-se à frente, cruzou os braços à altura do peito e fixou seus olhos (aumentados desproporcionalmente) em mim. Eu pigarreei e ela nem piscou. Desviei os olhos mas podia nota-la ainda a me encarar. Quando ia me apresentar à pequena, salvo pelo gongo, outras 10 crianças entraram sem nem olhar para mim e sentaram-se nos lugares que queriam.
Eu nunca fui bobo, nunca mesmo. Sabia quem seria problema desde o primeiro momento. Pus-me de pé, afastando a cadeira e estremeci por dentro vendo toda aquela pirralhada reunida, conversando, rindo e olhando para mim. Pigarreei novamente. Fui ignorado. Arrumei os óculos e dei um tapinha na mesa. Ignorado. Franzi o cenho e disse:
-Senho...hum...crianças! De frente! – Minha voz tinha um poder avassalador, pelo que pude ver e, como em um colégio militar, todas as crianças viraram para frente, me olhando de olhos arregalados. Eu contive um sorriso. –Pois bem, serei seu novo professor, meu nome é Carlos, mas podem me chamar de Professor, Senhor, Carlos ou Senhor Pimentel. Entendidos? Entendidos, crianças? – Elas bradaram: “Sim, professor”. Eu sorri. Se continuassem assim, seria fácil lidar com elas. –Ótimo. Bem, para começar, quero que se apresentem, um por um, aqui na frente. Digam seus nomes, o que querem ser quando crescer e podem voltar. Hum...quem quer ser o primeiro? –Como não houve resposta, corei brevemente. Havia preparado uma aula mais animada, ou o que eu achava que era animada, antes da aritmética.
Foi no meio de minhas divagações, enquanto olhava ansioso para aquele projeto de turma que um braçinho se ergueu na primeira cadeira do meio. Eu olhei-a, a menina dos óculos. Sorri desesperado e desci do palanque.
-Pode vir. –Chamei-a, encostando-me na parede, uma prancheta em mãos, a caneta flutuando sobre o papel, pronto a anotar tudo. E ela continuou flutuando...e flutuando. Desviei o olhar para a menina que estava de pé, olhando a todos, as bochechas coradas e o olhar ansioso. –Hum...pode começar. Qual é seu nome? –Indaguei, forçando um sorriso. Era difícil. Eu não era bom em sorrisos.
A menina me olhou e corou ainda mais. Foi então que sua boca se mexeu e nenhum som saiu. Ela ficou ainda mais vermelha, deu uma tossidinha e disse sem parar para respirar:
-Meu nome é Prudence... – E então veio uma onda de risadinhas daquela turma de macacos. Eu os olhei, severo, calando-os. Fui até ela que parecia querer chorar, abaixei-me, muito, para ficar na altura dos olhos dela, como se fazem com os cachorros. –É um belo nome, Prudence. Você sabia que uma banda muito famosa e querida tem uma música com seu nome? É o nome mais bonito que já ouvi. –Ela sorriu, envergonhada.
-A banda é...The Beatles, senhor, a música é Dear Prudence. Minha mãe gostava muito deles. –Ela parecia mais relaxada. E eu assustado. Ela era uma pequena gênia. Que sorte, uma da minha espécie! Eu sorri, dessa vez menos amarelo.
-Ótimo, ótimo, você conhece suas origens, já é um avanço. O que deseja ser? –Perguntei, anotando seu nome com uma estrela, destacando-o.
-Ah, eu quero ser cientista. –Eu quase ri, mas me contive.
-É uma boa escolha, Prudence. Agora, já que terminou, vamos deixar os outros tentarem também. –Indiquei a cadeira dela e me sentei à mesa, anotando “Cientista” ao lado de “Prudence”. Seguido dela veio Roberto, que queria ser astronauta, junto com Rodolfo, Luis, Gustavo, Ricardo, Maria, Larissa, Lívia, Lídia, Débora, todos com o mesmo desejo: “Ser grande”. Sério, eu sou meu herói, tive a vontade de estrangular aqueles meninos sem senso de individualidade e nem imaginação para fazer piadinhas, mas me controlei e respirei fundo, anotando pacientemente.
4 de junho de 2009
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