Mandonna e os palcos do passado
Ao chegar a casa, exaurida pelo calor, Ceicarelli correu para a cama, a cabeça latejando. Era a mesma sensação que ela tinha quando passava horas tentando pensar. Ao cair na cama adormeceu profunda e rapidamente.
A noite caíra tão derrepente que fez um estrondo. Um estrondo tão grande que foi capaz de acordar o porco com dor no estômago que era Ceicarelli. Mas não, não era a noite. Ainda estava de dia. Não, não estava. Ela se levantou, bocejando e abriu a cortina, vendo a lua. Oras, se já era noite, que barulho fora aquele e que luz misteriosa seria esta que lhe ofuscava os olhos?
-Am I, Girl!-Saudou uma voz conhecida e melodiosa mas igualmente impossível de estar ali. A voz de Mandonna.-How are you? I'm Fine, Thanks. Hello, i'm Mandonna.
A modelo ergueu as sobrancelhas, a boca aberta dando-lhe uma cara ainda maior de molóide.
-Como disse? Não entendi nada. Sabe, não falo francês. -Sussurrou, assustada olhando a loira com malhas esportivas e cabelos na altura dos seios, mas cheia de rugas e com uma bengala na mão.
-Oh, Holy Shit! I forgot to activate the Google Translator!-Praguejou a senhora que começou a andar, cambaleante em direção à mesa do computador de Ceicarelli. Antes que chegasse, a página do Google Translator foi aberta e ela sorriu um sorriso branco e enrugado.-Ok, um, dois, três, testandooo?-Falou, olhando para a tela do leptop.-Ótimo, funcionou. I imagine. Maldição de Google. -Rosnou, olhando o computador ferozmente. A mensagem : "Nosso sistema precisa ser atualizado, por favor, não se irrite e ajude-nos, pagando-me umas férias em Londres. Juro que voltarei sabendo tudo", seguido de um "*-*" cativante. Mandonna revirou os olhos e os pousou na garota.-Oh, é mesmo, como é a idade, não é? Como disse, sou Mandonna, o Espírito do Christmas Passado. -Sorriu e estendeu a mão enrugada e de veias saltadas para uma Ceicarelli abobada -ainda mais abobada.
-Anh...tipo no desenho da Dysnei? -Ofegou, sem apertar a mão da velha Mandonna que deslizou a mão pela bengala, fazendo cara de tédio.
-É, isso aí, boa menina, merece um biscoitinho. -Rosnou, batendo a bengala no chão.-É, mais ou menos isso. Sou a primeira dos três fantasmas que lhe visitarão esta noite e eu vou conduzi-la a uma viagem pelos abismos escuros de seu passado. Portanto ande logo e trate de sentar-se à cadeira do computador, sim? Thanks. -Não esperou resposta e eu não a culpo por isso. Esperar alguém daquele porte raciocinar normalmente já é difícil. Ainda mais sob pressão. Cutucou-a com a bengala e fê-la sentar-se na cadeira à força. Quase que na mesma hora que a futura (ou não) cantora olhou para a tela inicial do Google, seus duplos "O's" pareceram alargar-se e projetar-se para frente. Ela sorriu bobamente e tocou o "O" vermelho que se esticou e engoliu-a. Antes de entrar no amarelo com cara de quem experimentava aquilo todo o Natal e já estava de saco cheio, ela revirou os olhos. -Jovem tola.-Foram suas últimas palavras antes de rodopiar pelo redomoinho amarelo.
Havia um ponto na queda quase infinita rumo à oscuridade que se alargava sob seus pés em que os dois túneis, o amarelo e o vermelho, se uniam em um. E é neste ponto em que elas foram engolidas pela escuridão. Ceicarelli caiu com um baque oco no chão de terra batida enquando Mandonna flutuou ao seu lado, sussurrando algo como "Gimme More" centenas de vezes, pelo que se parecia. Ceicarelli havia virado-se de frente, a expressão em choque enquanto fitava o Espírito idoso.
-Deus, você é um fantasmaaaa!-Ofegou, afastando-se, levantando-se com a mão cheia de terra e jogando contra a fantasma que olhava-a abismada.
-Goood, como é lenta!-Bufou, vendo os grãos de terra atravessarem sua barriga. Riu baixo. Só tendo um senso de humor daqueles. Certo, ela adorava essa parte. De sua roupa justa puxou uma ponta de algo tilintante. Puxou-o até dar a altura do ombro e cortou-o com um sopro. Suas correntes. Apareceu na frente dela, mostrando a língua, ficando vesga e sacudindo as correntes. Ceicarelli olhou-a firmemente, os olhos como laranjas e caiu para trás, dura como uma múmia.
Ela dava tapinhas singelos no rosto da garota que atravessavam-na. A modelo acordou com um arrepio e ia começar a gritaria quando Mandonna silenciou-a com o indicador e apontou-o para a janela de um casebre. Um casebre realmente conhecido pela possível cantora. O casebre onde passara toda a infância trabalhando duro dia após dia sob sol ou chuva no canavial. Ela olhava meio triste, meio nostálgica para a menininha de cabelos cor de ouro sujo na única janela da "casa". Ela tinha em mãos uma boneca e fazia-a desfilar pelo beiral da janela, com um brilho no olhar e com os lábios se mechendo. Quando chegou mais próximo a ela, pôde ouvir os barulhos de flashs que fazia. Sorriu de leve e tentou tocá-la, atravessando-a.
-She é apenas uma lembrança. Sabe por que te trouxe até aqui?-Sussurrou e logo depois acrescentou:-Claro que não sabe, doce ilusão. Olhe bem para você. Olhe bem. Qual era seu desejo mais profundo?
-Modelar. -Sussurrou, o coração apertado.
-Exato. Modelar. Você sempre foi gentil com os outros.
-Exato. Modelar. Você sempre foi gentil com os outros.
-Era uma máscara para conseguir me tornar modelo! -Retrucou com aspereza.
-Não, a máscara é a que você está usando agora.-Contradisse o Espírito, mudando a imagem com um aceno teatral de mão. Era como ver pela superfície de um lago. A imagem tremeluziu e entrou em foco. Era agora mais velha. Um ou dois anos se bem se lembrava. Sorria alegremente enquanto ajudava a descarregar um caminhão de comida para carentes. Olhou para o lado e viu-o. O rapaz a quem sempre amara mas que era tão humilde que precisava da ajuda dela e de outras pessoas mais ricas para sobreviver. A imagem mudou. Ela beijando-o. Mudou novamente, formando uma espécie de slide-show. Ela empurrando ele. Sempre fora boa atriz. Partira o coração dele para assinar um contrato. Partira o próprio coração para assinar um contrato. As imagens mudaram até uma manchete de jornal: "Ex-namorado de modelo com carreira meteórica rouba-a antes de fugir. A polícia não tem notícias." Tudo parte de um plano. Sempre um plano. Outra manchete apareceu. "Ex de Ceicarelli, a modelo mais importante do país preso". Sim, ela concordara com isso. E assim seu coração foi esmigalhado para todo o sempre. Talvez. -É, isto foi cruel. Inteligente. Mas igualmente cruel.-Sussurrou o espírito e ela reparou que estava em casa de novo e Mandonna estava mais pálida, translúcida.-Minha hora de ir está chegando. É a vez do próximo espírito. Vou te deixar com sua consciência.-Após a última palavra ela havia sumido.
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