Homem-primata, capitalismo selvagem.

30 de maio de 2009

Crônicas de uma classe - Parte IV

Como havia dormido daquele jeito, de janelas abertas, acordei as cinco junto com os primeiros raios de sol. Os raios de sol das férias. Os raios de sol que fariam muitas pessoas sorrirem, mas que me fizeram bufar. Começaria hoje, daqui a quatro horas, a ensinar para crianças. Meu estômago revirou por um segundo e eu me levantei. Estava sem fome, mas após sair do banheiro comi minha tigela de cereal matinal com leite. Arrumei-me e me joguei no sofá, esperando o tempo passar.

E ele passou bem rápido. Em um piscar de olhos eu já estava atrasado para a aula. Levantei-me e corri para a moto, acelerando-a e pegando um atalho até a escola. Sim, eu estava ansioso. Na verdade, apreensivo. Mais como ficam os condenados à morte caminhando pela milha verde. É, era assim que eu sentia. Tentando adiantar o inevitável para que acabasse logo.

Demorou certo tempo para achar a escola, ela localizava-se mais para o meio rural da cidade, o que era estranho. Era um belo lugar, todo pintado de branco com o nome escrito em diversas cores na parede principal. Parei no estacionamento, a escola aparentava calma. Aquela calma que os tubarões têm antes de destroçar suas vítimas. Desliguei a moto, peguei meu capacete e me encaminhei à secretaria. Na verdade, era um hexágono de tijolos no meio do pátio e com uma placa dizendo que era ali a secretaria.

Entrei sem bater, já que a porta estava aberta. Havia uma atendente com cara de Chacrete aposentada. Contive meu riso perante a figura parada nos anos sessenta e apresentei-me.

-Sou...

-Carlos Pimentel, eu sei, o menino gênio e a próxima vítima, ok, assine aqui. Aqui. Aqui. E aqui. Isso, bom garoto, sua sala é a 43, tome seu horário e não desperdice meu tempo. Tchauzinho. – Foi como falar com o Furacão Katrina. Ela me passou uma folha em que eu assinei rapidamente várias vezes e em seguida me enxotou da sala com um papel de horários de aulas. Em menos de três minutos estava do lado de fora, no frio, olhando o papel em minhas mãos.

Enquanto andava devagar, olhava o horário. Era estranho, eu devia dar aulas até de Educação Física! Eu nunca fui bom naquilo! Eu tinha sorte de não ter isso na faculdade. Respirei fundo e fui para a sala 43, sentando-me à mesa, esperando pela hora do sinal.

Crônicas de uma classe - Parte III

Os dias se passaram rapidamente demais. Em um piscar de olhos a última semana de aula antes do recesso estava ali, na minha frente. E junto com ela as brincadeiras de final de ano.

Era bem comum, enquanto caminhava pelo campus, notar rolos de papel higiênico adornando as árvores e mechas de cabelos ao chão – frutos de uma promessa para passar de anos, provavelmente. As mangueiras de emergência estavam todas abertas, fazendo com que saltássemos por entre poças. Professores e zeladores corriam por toda a Universidade, tentando conter os ânimos-pré-férias dos alunos. Eu, obviamente, repudiava aquilo. Mas não falava nada. Quanto mais idiotas, menos concorrência no futuro. Era o que mamãe dizia antes do acidente, me deixando sozinho no mundo. Piscando furiosamente, sempre me controlava. Nunca havia derramado uma lágrima sequer pela morte de ninguém.

Na última semana houve uma pequena festa no último dia, mais especificamente. Não liguei para ela e fui embora, me preparar em casa para o último dia de aula. Estava tão distraído que quase arranquei tinta de um carro ao meu lado.

O dia foi uma droga. Agi maquinalmente e terminei todas as tarefas em menos de três horas. Deitei-me na cama ainda de dia e fiquei a olhar o teto com o estômago revirando lentamente. No dia seguinte começava o martírio. Aulas para a terceira série, crianças, pequenos demônios sem asas. Adormeci naquela posição.

Crônicas de uma Classe - Parte II

A sala arredondada tinha inúmeros quadros de personalidades famosas na faculdade por méritos – ou deméritos, como os esportistas, em minha opinião – diversos. Troféus, medalhas e certificados preenchiam as estantes também arredondadas para adequarem-se ao formato da sala. Tirando-se isso, ao final do aposento encontrava-se o tucano-de-óculos-e-reitor-Eduardo, sentado em sua cadeira estofada de couro, as mãos sobre a mesa. Ele sorriu ao me ver e indicou a cadeira. Pigarreei e sentei-me, a mochila sobre o colo e as mãos nos braços da cadeira. O silêncio que nascera à minha chegada culminara naquele momento em que eu o quebrei.

-Pois então, senhor?

-Ah, o senhor fala! Que agradável, deveria usar mais sua voz. Pois bem, para quê, exatamente, veio aqui, senhor Pimentel? –Perguntou, cruzando os braços e recostando-se na cadeira confortável.

-Hum...bem, o senhor me chamou, não é? Queria me dar o tal prêmio e provavelmente preferiu dá-lo longe dos colegas de classe com o intuito de não causar-lhes inveja, estou certo?

-Temo em dizer que está redondamente enganado, senhor. Eu o trouxe aqui para lhe dar, sim, seu prêmio. Mas para evitar...bem, sugiro que o veja antes de dizer qualquer coisa. –Disse, sorrindo terrivelmente e me passando uma pasta, que peguei, sem desviar os olhos dos dele. Ele era estranho, não sabia se me agradava ou não, era um mistério completo para mim. Desviei os olhos para a pasta, abri-a rapidamente e vi o que havia dentro. Apenas uma folha, quase em branco, exceto por poucas linhas aqui transcritas em íntegra:

É com orgulho que eu, Eduardo D’Amour, concedo ao aluno Carlos Pimentel seis meses como professor da turma de terceira série da escola primária “Santa Paz” com o intuito de um aprendizado firmado nas bases sólidas da amizade e amor infantil como prêmio por excelência no curso de Direito.

-Pois bem, você começa no primeiro dia de férias. –Sorriu-me o velho senhor. Olhei-o incrédulo e minha mente já formara uma imagem concreta para aquele homem. Era um sádico maldito louco para estragar quaisquer chances que tivesse de me tornar o melhor advogado do país e ainda levar todas as minhas férias. Eu ri, levemente aturdido.

-Bem engraçado, senhor, mas...hum...como? –Gaguejei. Sinal de fraqueza. Nada bom.

-Ora, o senhor ri e...gagueja! Está me surpreendendo, senhor Pimentel. –Ele sorriu, ainda mais loucamente que o normal. –Não é uma piada, meu caro. É seu prêmio. E...hum...o senhor precisa aceitar.

-Por quê? –Perguntei, atrevido.

-Ora, porque eles já te esperam lá. Se não for, crianças ficarão sem professor. –Ele sorriu, dessa vez aparentando mais preocupação.

-Senhor! Por favor, eu vou perder todas as férias com pirralhos. Eu preciso estudar! –Supliquei, levantando-me.

-Sente-se, senhor Pimentel. –Eu o obedeci. Sua voz obrigava-me. Pelos próximos trinta minutos ele me convenceu dizendo-me que faria bem ao meu currículo, que se eu não fosse os pirralhos ficariam sem estudo e que eu já sabia a matéria o suficiente por mais cinco anos de faculdade se me interessasse. Novamente com aquele sorriso ele se levantou e se despediu, teria que pegar a filha na futura escola em que eu lecionaria. Engoli em seco. Eu não tinha escolha. Era o novo professor dos pirralhos.

Crônicas de uma Classe.

Hoje foi um dia que mudou minha vida, nunca mais vou esquecê-lo. Nos próximos dias relatarei aqui, sobre as minhas aventuras de hoje e dos próximos dias nos quais serei obrigado a freqüentar aquele hospício nomeado ironicamente de “Escola Santa Paz”. Meu nome é Carlos e eu sou um futuro advogado.

Meu dia sempre começa igual, levanto-me as seis e dez, escovo meus dentes, me arrumo, subo em minha moto e me dirijo à Faculdade. Chego exatamente às sete horas, quarenta minutos adiantado. Escolho meu lugar, sento-me e espero, folheando qualquer livro que esteja lendo no momento, até que a sala esteja lotada de pessoas com as quais troquei apenas duas palavras. É nesta hora que fecho meu livro e olho fixamente para frente, esperando o professor chegar. Anoto cada suspiro deste e ao final da aula eu aprendi até os tiques nervosos característicos do stress de ser mestre. Lembro-me de pensar sempre: “Escolhi a profissão certa, nunca vou ter que dar aulas para idiotinhas sem cérebro.”. Irônico, não?

Foi num destes dias, precisamente no dia vinte e nove de maio de dois mil e nove. Foi quando tudo começou a desandar. Lá estava eu, encarando o professor que - ria de uma piada de cunho sexual - com o cético olhar de quem se decepciona ao ver um ídolo ser preso por tráfico de drogas. Foi nesta hora que um senhor deu dois toques na porta de madeira e entrou. Seu semblante me fazia lembrar de um tucano com óculos equilibrados na ponta do nariz. O senhor fixou seus olhos inteligentes em mim e com certeza me reconheceu, pois esboçou um sorriso sádico e começou a falar enquanto passava os olhos em uma lista.

-Pois bem, meu nome é Eduardo e eu estou aqui para distribuir o prêmio de melhores alunos da escola. Por favor, sem estardalhaço, sim? –Disse ele, olhando friamente para um grupo que cochichava meu nome. Eu podia ouvir, mas não movi um músculo sequer e Eduardo voltou a falar, jogando a lista no lixo. – Não preciso disso, já que o melhor aluno em uma matéria é o melhor em todas. Carlos Pimentel, se apresente, por favor. –Ele disse, passando os olhos pela turma. Como se eu não soubesse que ele tinha certeza de quem era Carlos Pimentel. Levantei minha mão, olhando-o com atenção, sem me distrair pela nuvem de risadinhas ao meu redor. –Ótimo, aí está nosso aluno-modelo. Pois bem, ao final da aula apresente-se na reitoria. Obrigado, professor Santos. –Disse, deslizando para fora da sala. Eu ergui uma sobrancelha. Uma das coisas que me faziam ser o melhor aluno era minha curiosidade. Bem, eu era frio com tudo, podia ignorar à vontade meus pensamentos e sentimentos. Voltei-me para o professor. A aula transcorreu sem mais nenhum acontecimento digno de nota, portanto, ao soar do sino levantei-me e saí apressado para a sala da reitoria. Chegando à porta, respirei fundo e bati duas vezes, entrando em seguida, exatamente como o reitor Eduardo fizera.

27 de maio de 2009

Ignorando Sentimentos.

Por favor, sem moralismos aqui no Simbi, certo? Sim, eu estou chateado, sim, eu estou para baixo e sim, aqui é o único lugar onde posso dissertar sobre isso sem precisar temer por nota ou por amizade alguma.

Essa semana começou um tanto quanto...ansiosa para mim. Logo na segunda-feira eu estava louco pela tal resposta, que só chegou à noitinha e, como imaginava, não foi nada agradável.

Pois bem, sempre temos decepções, certo? Mas então alguém interferiu e a ansiedade novamente cresceu em meu peito, tudo por culpa do famigerado e tolo "amor". E mais uma vez, a resposta me abalou e eu entrei neste estado vegetativo em que me encontro.

Ok, não foi só isso, foi um somatório: Desilusão + Decepção com alguns amigos + Morte de alguém próximo = Isolamento e ódio. Tudo isso porque me contive demais, porque me escondi, dia após dia, hora seguida de hora, atrás da fachada "feliz e gente boa, aquele Vinícius". Agora? Que se fuck, como diz o Robinho da GTO.

Eu decidi, por intermédio dos meus dois neurônios, que vou manter-me sem sentimentos. Serei uma máquina por uma semana, como em uma experiência. Não vou demonstrar dor, nem amor, carinho, afeto, compaixão, felicidade ou tristeza. Quarta-feira que vem eu direi se deu resultado e aí poderei sugerir ou não a experiência. Bem, au revoir.

14 de maio de 2009

Acaju









Pra quem ainda não sabe, eu adoro música brasileira... Sim, sim também adoro Beatles, Queen, e outras fodesas que vem da gringa... Mas sempre tive um ouvido atento a nossa terrinha. É amigos, creio que é todos vão concordar que nada como um pouco de Legião Urbana, Cazuza, Engenheiros, Los Hermanos; para adoçar um dia. Agora, não adianta dar valor aenas ao passado, mas também ao presente. O cenário da música nacional atual anda um pouco confuso... Talvez por esta facilidade de produção, as novas mídias e etc... Nunca tivemos tantas coisas legais sendo ouvidas por aí... (E muitas coisas ruins também na minha opinião...) 
Enfim, sem lenga-lenga. Estes caras aí de cima formam uma das melhores bandas do cenário independente deste país. Conheci eles pela primeira vez durante um especial do Raul Seixas a alguns anos... Quando senti a vibração destees caras, anotei o nome e procurei no my space na mesma hora...
Aliás, eles e o Vanguart naquele mesmo dia, senão me engano...
Enfim. Me surpreendi. Algo totalmente original e único. Costumam se descrever como uma: "feijoada búlgara", pela total mistura de referencias. E não encontro motivo gastronomico que os defina de melhor forma.

Enjoy.

Ah, eu nunca fui lá um talento com as letrinhas, mas tentei.

 Eu iria divulgar de qualquer forma mas a promoção para ir ao show exclusivo me deu um empurrãozinho confesso... xD