Homem-primata, capitalismo selvagem.

30 de maio de 2009

Crônicas de uma Classe - Parte II

A sala arredondada tinha inúmeros quadros de personalidades famosas na faculdade por méritos – ou deméritos, como os esportistas, em minha opinião – diversos. Troféus, medalhas e certificados preenchiam as estantes também arredondadas para adequarem-se ao formato da sala. Tirando-se isso, ao final do aposento encontrava-se o tucano-de-óculos-e-reitor-Eduardo, sentado em sua cadeira estofada de couro, as mãos sobre a mesa. Ele sorriu ao me ver e indicou a cadeira. Pigarreei e sentei-me, a mochila sobre o colo e as mãos nos braços da cadeira. O silêncio que nascera à minha chegada culminara naquele momento em que eu o quebrei.

-Pois então, senhor?

-Ah, o senhor fala! Que agradável, deveria usar mais sua voz. Pois bem, para quê, exatamente, veio aqui, senhor Pimentel? –Perguntou, cruzando os braços e recostando-se na cadeira confortável.

-Hum...bem, o senhor me chamou, não é? Queria me dar o tal prêmio e provavelmente preferiu dá-lo longe dos colegas de classe com o intuito de não causar-lhes inveja, estou certo?

-Temo em dizer que está redondamente enganado, senhor. Eu o trouxe aqui para lhe dar, sim, seu prêmio. Mas para evitar...bem, sugiro que o veja antes de dizer qualquer coisa. –Disse, sorrindo terrivelmente e me passando uma pasta, que peguei, sem desviar os olhos dos dele. Ele era estranho, não sabia se me agradava ou não, era um mistério completo para mim. Desviei os olhos para a pasta, abri-a rapidamente e vi o que havia dentro. Apenas uma folha, quase em branco, exceto por poucas linhas aqui transcritas em íntegra:

É com orgulho que eu, Eduardo D’Amour, concedo ao aluno Carlos Pimentel seis meses como professor da turma de terceira série da escola primária “Santa Paz” com o intuito de um aprendizado firmado nas bases sólidas da amizade e amor infantil como prêmio por excelência no curso de Direito.

-Pois bem, você começa no primeiro dia de férias. –Sorriu-me o velho senhor. Olhei-o incrédulo e minha mente já formara uma imagem concreta para aquele homem. Era um sádico maldito louco para estragar quaisquer chances que tivesse de me tornar o melhor advogado do país e ainda levar todas as minhas férias. Eu ri, levemente aturdido.

-Bem engraçado, senhor, mas...hum...como? –Gaguejei. Sinal de fraqueza. Nada bom.

-Ora, o senhor ri e...gagueja! Está me surpreendendo, senhor Pimentel. –Ele sorriu, ainda mais loucamente que o normal. –Não é uma piada, meu caro. É seu prêmio. E...hum...o senhor precisa aceitar.

-Por quê? –Perguntei, atrevido.

-Ora, porque eles já te esperam lá. Se não for, crianças ficarão sem professor. –Ele sorriu, dessa vez aparentando mais preocupação.

-Senhor! Por favor, eu vou perder todas as férias com pirralhos. Eu preciso estudar! –Supliquei, levantando-me.

-Sente-se, senhor Pimentel. –Eu o obedeci. Sua voz obrigava-me. Pelos próximos trinta minutos ele me convenceu dizendo-me que faria bem ao meu currículo, que se eu não fosse os pirralhos ficariam sem estudo e que eu já sabia a matéria o suficiente por mais cinco anos de faculdade se me interessasse. Novamente com aquele sorriso ele se levantou e se despediu, teria que pegar a filha na futura escola em que eu lecionaria. Engoli em seco. Eu não tinha escolha. Era o novo professor dos pirralhos.

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